PENSAMENTOS E ANÁLISE DO COMPORTAMENTO [1/2]

Este texto é um resumo do capítulo 5 do livro "Psicoterapia Analítica Funcional: Criando Relações Terapêuticas Intensas e Curativas", de Robert J. Kohlenberg & Mavis Tsai (2006). O título do capítulo é "Cognições e Crenças".

(Os parágrafos que estão entre asteriscos (*) são informações não citadas pelos autores do livro)

*A Análise do Comportamento geralmente é acusada de negligenciar os pensamentos (assim como os sentimentos). Isto é um equívoco - infelizmente - muito comum, sendo transmitido até por docentes de cursos de psicologia. Skinner, na década de 50, já havia dito sobre o "mundo sob a pele de cada um" e sobre os eventos privados - ou encobertos -, referindo-se aos pensamentos, sentimentos, emoções, intuições, etc. Desta forma, não é correto continuarmos afirmando que a Análise do Comportamento não estuda estes fenômenos.*

*O texto de Kohlenberg e Tsai faz uma comparação entre Psicologia Cognitiva e Análise do Comportamento; qual a importância que cada uma dá aos pensamentos e como eles influenciariam o comportamento. Como o capítulo é extenso, dividirei o resumo em 2 partes.*

TERAPIA COGNITIVA

Há uma considerável diversidade dentro do que é compreendido como teoria e prática da terapia cognitiva. Albert Ellis, um pioneiro da terapia cognitiva, introduziu a ideia de que os pensamentos e sentimentos do cliente poderiam ser apresentados da seguinte forma:

A  →  B  →  C
 
 (A = Evento antecedente, B = Cognição/Crença, C = Comportamento consequente ou sentimento. Desta forma o pensamento influenciaria diretamente o comportamento, e modificando B também se modificaria C).

- Problemas com a terapia cognitiva e o paradigma ABC

Primeiro, o paradigma ABC exclui maneiras alternativas pelas quais as cognições e os comportamentos poderiam ser relacionados. Russel e Brandsma (1974) sugeriram que os problemas dos clientes poderiam começar ajustando-se ao paradigma e, então, depois de várias repetições ao longo da vida, o condicionamento clássico removeria a ocorrência de "B" (pensamento).
Outro exemplo poderia ser o de clientes que dizem aceitar racionalmente que não precisam ser amados por todos, mas que ainda se sentem desolados quando são rejeitados. Assim, "B" seria inconsistente com "C". E, ainda, outros clientes podem relatar não experimentar nenhum "B" conscientemente que preceda seus "C" problemáticos.

Um segundo problema é que o uso do paradigma ABC pode levar a alguns procedimentos clínicos questionáveis. Por exemplo, se o terapeuta acredita realmente neste paradigma, a rejeição do cliente a tal crença do terapeuta é então desafiada. O desafio toma a forma de questionamento direto da lógica ou da sinceridade do cliente, ou ainda que haja cognições inconscientes adicionais a serem descobertas.
Do ponto de vista da FAP (Psicoterapia Analítica Funcional), um efeito antiterapêutico do modelo ABC poderia acontecer quando um cliente que não aceita este paradigma é desafiado pelo terapeuta. Se esse cliente estivesse procurando ajuda para ser mais assertivo ou ter mais confiança em suas próprias opiniões, então, contestar o terapeuta poderia ser um comportamento desejável.

Um terceiro problema refere-se à evidência usada para dar sustentação à noção de que sentimentos e ações disfuncionais são CAUSADOS por "B" desviantes, irracionais ou patológicos. = UM tipo de evidência que dá suporte isso é obtida ao comparar-se os pensamentos e atribuições de clientes com os de sujeitos "normais". Ou seja, os clientes tendem a ter mais pensamentos disfuncionais, logo, seriam os pensamentos que causam os comportamentos problemáticos. Mas isso só demonstra que as pessoas com problemas clínicos TAMBÉM possuem pensamentos irracionais, não demonstrando que um é causa do outro.

Um quarto problema se deve à relação teoria-prática. Não está claro como a hipótese cognitiva (teoria) se relaciona a muitos dos procedimentos de tratamento específico (prática). Por que e como, por exemplo, a argumentação lógica ou uma evidência mudariam uma estrutura cognitiva? / Como a teoria cognitiva dá suporte à defesa de Beck sobre a adequação do uso de uma abordagem socrática, na qual os clientes têm que descobrir por si mesmos suas suposições implícitas?

- Formulação Revisada da Terapia Cognitiva

Numa tentativa de melhorar o modelo ABC, terapeutas cognitivos se voltaram para a teoria cognitiva básica e a revisaram. = Especificaram o que se entende por "B" (cognição) e como ele está relacionado a problemas clínicos. (Como os pensamentos afetam os comportamentos).
Por exemplo, Hollon e Kriss (1984) delinearam os diferentes usos do termo cognição e fizeram uma distinção entre produtos cognitivos e estruturas cognitivas.
  • Produtos cognitivos = comportamentos privados, conscientes, diretamente acessíveis, tais como pensamentos, autodeclarações e pensamentos automáticos.
  • Estruturas cognitivas = esquemas; são as entidades organizacionais implícitas que desempenham um papel ativo no processamento de informações. São inconscientes e não podem ser diretamente conhecidas, mas inferidas a partir dos produtos.
 Na perspectiva de Hollon e Kriss, o FATOR CAUSAL é a estrutura cognitiva, enquanto os produtos cognitivos constituem "sinais ou dicas sobre a natureza das estruturas de conhecimento de alguém".
Mesmo com esta reformulação, a prática da terapia cognitiva não acompanhou a mudança na teoria. Beck et al. (1979) declarou que "as intervenções cognitivas e comportamentais para modificar pensamentos SÃO AS MESMAS empregadas para mudar as suposições ocultas" (p. 252). = O que diferencia os procedimentos de tratamento clínico de produtos daqueles que são utilizados para o tratamento das estruturas, é que este último deve ser primeiramente inferido (p. ex., o cliente deve ABSTRAIR ou DEDUZIR A EXISTÊNCIA DA ESTRUTURA). E uma vez inferidos ou abstraídos, as estruturas são tratadas da mesma maneira que os produtos. 

A REVISÃO FAP DO  A  →  B  →  C

De acordo com este modelo, as cognições podem representar uma papel maior, menor ou insignificante nos problemas dos clientes.

Uma concepção comportamental da cognição envolve vários tipos diferentes de comportamento do cliente, incluindo:
  • Comportamentos modelados pelas contingências;
  • Comportamentos governados por regras;
  • Comportamento Verbal - TATO;
  • Comportamento Verbal - MANDO.
 - Comportamento Modelado por Contingências

São aqueles comportamentos que têm sido diretamente fortalecidos por reforçamento. Muitos comportamentos, no entanto, não foram diretamente reforçados, mas ocorrem mais em função de estímulos prévios.
Por exemplo: as instruções são estímulos prévios que podem evocar comportamentos complexos que NUNCA tenham sido diretamente reforçados = Um instrutor, demonstrando o que fazer, pode evocar um comportamento não reforçado anteriormente. Dizemos, então, que as contingências modelaram o comportamento mais global (como imitar o instrutor, por exemplo), mas ainda não tiveram a chance de exercer muita influência no comportamento específico que está sendo imitado ou instruído.

Embora uma experiência consciente de prazer possa acompanhar frequentemente uma contingência que envolve o reforço positivo, ela não é uma parte necessária da modelagem e do processo de fortalecimento e não deveria ser confundida com isso. EXEMPLO: quase todo o nosso comportamento (falar, andar, correr, etc.) ocorre por causa dos efeitos fortalecedores do reforço, e muitas vezes esses comportamentos foram fortalecidos sem a nossa consciência do processo.

*Geralmente se diz que comportamentos modelados por contingências são aqueles em que o indivíduo está exposto diretamente às contingências, o que é um pouco diferente do comportamento de seguir regras, que será apresentado mais a frente*. Os autores do livro dão o exemplo de dois jogadores de pôquer, onde um apresenta comportamentos de calcular suas jogadas e o outro que teria sido modelado pelas contingências, atribuindo seu sucesso à intuição. 

- Tatos e Mandos: Dois Tipos de Comportamento Verbal

A explicação da modelagem por contingências não explica o "B" (pensamento). Para explicá-los precisamos entender os tatos e mandos.

  • Tatos: Incluem a ROTULAÇÃO e DESCRIÇÃO de eventos e objetos. Exemplos de tato: "Aquilo é água"; "Eu gritei com ele"; Eu não suporto isso".
  • Mandos: Incluem COMANDOS, PROPOSTAS, AMEAÇAS e PEDIDOS. Ele é reforçado por um conjunto reduzido de contingências.
    Exemplo: "Eu gostaria de um pouco de água" = Só será reforçado se resultar no comportamento do ouvinte de prover água ou algum outro líquido para o falante matar a sede.
Tatos e Mandos são aprendidos da mesma maneira pela qual quaisquer outros comportamentos também o são. Para ter um exemplo de como o tato é adquirido, considere uma criança que aprende a dizer "caminhão" ao ver um caminhão passar porque foi assim que seu pai ou mãe o descreveu; a criança é, então, reforçada diretamente ("está certo, aquilo é um caminhão") e indiretamente quando a palavra entra em outros contextos (a criança diz "Eu quero um caminhão" ou "Me dê aquele caminhão").

Se os tatos ou mandos são ditos em voz alta ou a si mesmo, não importa. Assim, nossa definição de pensamento é tato e mando a si mesmo.
Mas por que eles ocorreriam, seja em voz alta ou para si mesmo, quando não há ninguém por perto? Uma explicação comportamental de porque tato e mando a si mesmo ocorrem e como eles afetam os problemas do cliente é, segundo os autores, importante para a nossa compreensão de cognição e terapia cognitiva.

[Parte 2 aqui]

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