ENTREVISTA CLÍNICA INICIAL (SILVARES; GONGORA)
Esta postagem configura-se como um resumo do capítulo "Manual para Entrevista Clínica Inicial", do livro Psicologia Clínica Comportamental: a inserção da entrevista com adultos e crianças, de Edwiges Ferreira de Mattos Silvares, e Maura Alves Nunes Gongora.
1. A entrevista clínica inicial: conceitos e objetivos
- Conceito geral de entrevista: É uma interação verbal entre pessoas. Está sujeita às mesmas leis que se aplicam a qualquer interação verbal. Porém, a entrevista não é uma conversa qualquer, pois possui sempre objetivos específicos, seja em coleta de dados ou em intervenção.
Não é um interrogatório, nem uma conversa informal. É, então, uma atividade complexa, que exige formação e método por parte do entrevistador.
- A entrevista clínica: O objetivo deste tipo de entrevista é o de sempre obter dados pertinentes à intervenção terapêutica. Ela também visa ao estabelecimento de uma interação especial, facilitadora do processo terapêutico, sendo denominada "relação terapêutica" (a própria interação pode ser um instrumento terapêutico).
- A entrevista clínica inicial (E.C.I): A primeira entrevista é crucial na formação de primeiras impressões pelo cliente (LAZARUS, 1979).
Geralmente, quem procura atendimento pela primeira vez, o faz em duas situações típicas, as quais definem dois tipos de entrevista: de triagem, e a terapêutica.
- A entrevista de triagem visa fazer um diagnóstico rápido, mas suficiente, para que o cliente seja encaminhado ao tratamento adequado. (Neste sentido, todas as entrevistas iniciais fazem triagem de alguma forma). Também é importante que se determine a urgência do tratamento.
- Na entrevista terapêutica, o cliente é entrevistado por um profissional que dará imediata continuidade ao tratamento.
- Os objetivos da E.C.I.: Em geral, se utiliza a entrevista para se alcançar três objetivos: interacionais, de coleta de dados, e de intervenção.
- Interacionais: É importante que se desenvolva uma relação de confiança mútua, a qual possibilite ao cliente sentir-se confortável na situação (não se sentir constrangido frente ao terapeuta e, também, que se sinta motivado a continuar o tratamento).
- Coleta de dados: Geralmente se busca coletar mais dados nas primeiras sessões, nas quais se procura a formulação de um diagnóstico preliminar. Os dados devem ser, principalmente, os pessoais e aqueles que indiquem e especifiquem a queixa apresentada.
- Intervenção: Modificações no comportamento do cliente em função de procedimentos adotados na entrevista. A intervenção pode ocorrer em uma entrevista inicial, porém não é um objetivo obrigatório.
2. Modelo ou estrutura de entrevista inicial
ZARO et al. (1980) sugerem que todas as áreas sejam examinadas do geral para o particular e que, ao encerrar a entrevista, fique claro para o cliente qual será o próximo passo. Ela deve iniciar-se com um mínimo de estrutura, e questões abertas para identificar o problema; depois aumenta-se a estrutura com questões que indiquem as variáveis controladoras (OLLENDICK & HERSEN, 1984).
No modelo sugerido pelas autoras, a entrevista é dividida em três etapas: a) Introdução; b) Desenvolvimento; e c) Encerramento.
- Introdução: O profissional cumprimenta o cliente e o acompanha à sala de entrevista, onde se apresenta (diz seu nome e função). Verifica se o cliente quer alguma informação geral sobre o tratamento.
- Desenvolvimento: Esta é a parte mais extensa da entrevista, quando deve ser conhecido o(s) problema(s) do cliente. A entrevista deve ter uma sequência que parta do "geral para o particular", onde o terapeuta inicia com perguntas abertas e, só posteriormente, mais fechadas ("afunilamento de informações"). Assim, um assunto que, no início da entrevista foi colocado de forma muito geral, ao final da mesma poderá estar bastante detalhado. Também deve-se evitar induzir qualquer tipo de resposta do cliente, bem como permitir que o mesmo traga sua queixa de forma espontânea. Ao final dessa fase, é muito útil a elaboração, pelo terapeuta, de um resumo dos dados obtidos até o momento.
- Encerramento: Pode-se encerrar a E.C.I. através dos seguintes passos: dar pistas ao cliente que o tempo está acabando; evitar introduzir novos assuntos (ou que gerem algum tipo de perturbação no cliente); verificar se o cliente não está com dúvidas importantes; deixar claro qual será o encaminhamento.
Esta forma de se estruturar a E.C.I. nem sempre deve, ou pode, ser seguida. Em muitos casos, a sequência pode ser outra, como clientes que já chegam falando de seus problemas; clientes que respondem pouco a questões muito abertas e respondem melhor a questões fechadas. Dessa forma, o terapeuta pode ir adaptando este modelo a cada entrevista em particular.
3. Dados a serem levantados na E.C.I.
Na E.C.I. deve-se levantar alguns dados pessoais e familiares, identificar as queixas/problemas que motivaram a procura por atendimento, e levantar dados sobre as possíveis variáveis controladoras dos problemas.
Alguns itens gerais que podem ser investigados: dados pessoais do cliente (nome, idade, escolaridade, profissão, estado civil); dados do núcleo familiar (pais, irmãos, ocupação de cada um, etc.); comportamentos-problema que motivaram a busca por terapia; hierarquização das queixas, entre outros.
4. Habilidades de entrevistar
Comportamentos verbais e não verbais do terapeuta têm significativos efeitos sobre os comportamentos do cliente e sobre a informação por ele fornecida.
Seguem-se os tópicos formulados sobre as habilidades do terapeuta para entrevistar:
- Habilidades empáticas: Comportamentos positivos que o terapeuta deve apresentar em relação ao cliente. Os sentimentos mais comumente associados a este rótulo são autenticidade, sinceridade, genuinidade, honestidade, etc.; ou, também, "colocar-se no lugar do outro". Também envolve a não demonstração de sentimentos negativos (raiva, aversão, pena, etc.), isto seria, para alguns, a "aceitação incondicional". Isso implica admitir que o cliente possa ser como é, sem julgamentos por parte do terapeuta.
- Habilidades não verbais: Se relacionam à voz, expressão facial, postura corporal e aos gestos. O terapeuta deve manter sua voz suave e firme, olhar direta e seguramente nos olhos do cliente, postura corporal dirigida ao cliente, etc. Mas as autoras ressaltam que não seria adequado "decorar formas generalizadas a serem adotadas em todos os casos".
- Habilidades de perguntar: As perguntas devem ser feitas uma de cada vez, diretas, precisas, breves, claras, completas e, dentro dos limites em que o cliente possa/saiba responder. As perguntas devem relacionar-se aos objetivos da entrevista, caso contrário parecerão bisbilhotice.
Exemplos de questões abertas: "Como aconteceu?", "Como você se sentiu?", "Quais os principais fatos?". Deve-se evitar perguntas com "por que".
Questões abertas são adequadas para tratar de assuntos novos e amplos, enquanto as fechadas são mais úteis para assuntos já relatados pelo cliente, mas que exigem informações adicionais. O terapeuta também pode pedir esclarecimentos enquanto o cliente fala (sem que isso prejudique seu relato), ou pedir, ao final da exposição, uma complementação do que foi dito pelo cliente. - Operacionalizar informações: Trata-se de ajudar o cliente fazer, com suas palavras, descrições mais precisas sobre o problema que está relatando. Exemplos de queixas que precisam ser operacionalizadas: "a crise", "casamento ruim", "insônia". Implica, portanto, descrever o problema de forma objetiva e identificável para ambos (terapeuta e cliente).
- Parafrasear: Trata-se da repetição - pelo terapeuta - de frases ditas pelo cliente. A repetição é feita de forma lenta e pode ser seguida de momentos de silêncio, os quais induzem o cliente a pensar sobre o assunto. Parafrasear é afirmar, não é perguntar. O conteúdo a ser parafraseado deve ser predominantemente cognitivo.
Parafrasear em excesso pode ser tedioso ou irritante. - Refletir sentimentos: O terapeuta faz uma descrição dos sentimentos do cliente. Pode ser confundido com a "paráfrase", pois pode-se repetir o que foi dito pelo cliente, mas a diferença é que, aqui, o conteúdo é predominantemente afetivo.
- Sumariar ou resumir: Consiste em apresentar ao cliente uma síntese das principais informações fornecidas por ele. É um teste que o terapeuta faz para verificar possíveis em seu entendimento daquilo que o cliente relatou até o momento. Além disso, o cliente tem a oportunidade de rever sua própria fala e, ainda, lembrar-se de outras informações.
Pode ser usado sempre que existir grande volume de informações, ou indícios de que o terapeuta possa estar se equivocando. - Controlar a entrevista: Em qualquer circunstância, a direção da entrevista cabe ao terapeuta. Cabe a ele conduzir a entrevista para seus objetivos, tomando iniciativas e decisões e, sempre que necessário, mudando os rumos da mesma.
- Manter sequência: Refere-se à manutenção da qualidade e do fluxo da interação entre cliente e terapeuta. Para isso, o terapeuta precisa estar atento e responder aos comportamentos atuais do cliente, inclusive aos não verbais.
Observações finais: São inevitáveis os sentimentos em relação ao cliente, as respostas não verbais, as intervenções verbais e perguntas, a interação, etc., ou seja, essas classes de resposta sempre estarão presentes. Seriam optativas parafrasear, sumariar e refletir sentimentos; sendo a ausência de qualquer uma delas não prejudica, necessariamente, a qualidade da entrevista.
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